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A DAMA, O LEÃO E O UNICÓRINOteatro taborda FOTOS  ( + IMAGENS ) |
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A dama, o leão e o unicórnio TEATRO TABORDA 10 A 13 JULHO (entrada livre) 21H30 RESERVAS: 21 885 41 90 / 96 801 52 51 (entre as 15h e as 18h) Exercício de Tutoria - A partir do universo de Jean Genet Interpretação - Rui Neto Tutora - Maria João Vicente Realização Plástica - Sofia Ferreira Produção - Margarida Barata/Teatro da Garagem |
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Ali, num bosquezinho rodeado de flores, dorme o hermafrodita um sono profundo sobre a relva, molhada de suas lágrimas. A lua soltou o seu disco da massa das nuvens, e acaricia com seus pálidos raios aquela doce figura de adolescente. Os seus traços exprimem a mais viril energia, e ao mesmo tempo a graça de uma virgem celeste. Nada nele parece natural, nem mesmo os músculos do corpo, que espreitam através dos harmoniosos contornos de forma femininas. Tem o braço curvado sobre a testa e a outra mão encostada ao peito, como que para comprimir o bater de um coração fechado a todas as confidências e carregado com o pesado fardo de um eterno segredo. Cansado da vida e envergonhado de andar no meio de seres que não se parecem consigo, a sua alma foi conquistada pelo desespero, e anda só, como o mendigo do vale. Como conseguirá meios de subsistência? Velam por ele almas misericordiosas, sem que ele dê por esta vigilância, e não o abandonam: ele é tão bom, tão resignado! Fala às vezes naturalmente com os possuidores de um carácter sensível, sem lhes tocar na mão, e mantêm-se a distância, temendo um perigo imaginário. Se lhe perguntarem por que razão tomou a solidão por companheira, os seus olhos erguem-se ao céu e retêm a custo uma lágrima de censura à Providência; mas não responde a esta pergunta de forma imprudente, que espalha na neve das suas pálpebras o rubor das rosas matinais. Se a conversa de prolonga, torna-se inquieto, dirige os olhos para os quatro pontos do horizonte, como que para procurar fugir da presença de um inimigo invisível que se aproxima, acena com a mão um brusco adeus, afasta-se nas asas do seu pudor vigilante e desaparece na floresta. Geralmente tomam-no por louco. Um dia, quatro homens mascarados, cumprindo ordens, atiraram-se a ele e amarraram-no solidamente, de modo a que só pudesse mexer as pernas. O chicote precipitou-lhe suas rudes correias sobre as costas, e disseram-lhe que se dirigisse sem demora para a estrada de Bicêtre. Pôs-se a sorrir enquanto lhe batiam, e falou-lhes com tanto sentimento e inteligência sobre muitas ciências humanas que tinha estudado, e que demonstravam uma grande instrução naquele que ainda n tinha passado o limiar da juventude, e sobre os destinos da humanidade, no que desvelou toda a nobreza poética da sua alma, que os seus guardas, assustados até ao sangue pelo acto que tinham praticado, desataram-lhe os membros partidos, rojaram-se a seus pés, implorando um perdão que lhes foi concedido, e afastaram-se marcados por uma veneração que geralmente não se dedica aos homens. A partir deste acontecimento, que foi muito falado, todos adivinharam o seu segredo, mas parecem ignorá-lo para não aumentarem os seus sofrimentos; e que o governo concede-lhe uma pensão razoável para lhe fazer esquecer que houve um momento em que, sem prévia verificação, o quiserem meter à força num hospício de alienados. Ele gasta metade do seu dinheiro, e o resto dá-o aos pobres. Quando vê um homem e uma mulher a passearem numa alameda de plátanos, sente que o seu corpo se parte em dois, de alto a baixo, e que cada uma dessas partes vai abraçar um dos que passeiam; mas não passa de uma alucinação, e a razão não tarda a voltar a impor-se. Eis o motivo por que não junta a sua presença à dos homens nem à das mulheres; porque o seu excessivo pudor, que desabrochou na ideia de que é um monstro, o impede de conceder a sua ardente simpatia a quem quer que seja. Julgar-se-ia profanado, e que profanava os outros. O seu orgulho repete-lhe este axioma: “Cada um no seu lugar.” O seu orgulho, disse eu, porque teme que ao juntar a sua vida a um homem ou a uma mulher, venham mais tarde ou mais cedo acusá-lo, como se de um enorme pecado, da conformação da sua natureza. Então, escuda-se no seu amor-próprio, ofendido por esta suposição ímpia que só nele existe, e teima em continuar só no meio dos tormentos, e sem consolação. Ali, num bosquezinho rodeado de flores, dorme o hermafrodita um sono profundo sobre a relva, molhada das suas lágrimas. Os pássaros acordados contemplam com enlevo aquela figura melancólica através dos ramos das árvores, e o rouxinol recusa-se a fazer ouvir as suas cavatinas de cristal. Tornou-se o bosque solene como um túmulo pela presença nocturna do hermafrodita infeliz. Ó viajante perdido pelo teu espírito de aventura, que te fez abandonar pai e mãe desde a mais tenra idade: pelos sofrimentos que a sede te causou no deserto; pela tua pátria, que talvez procures, depois de teres durante tanto tempo deambulado, como proscrito, por terras estrangeiras; pelo teu corcel, fiel amigo, que suportou contigo o exílio da intempérie dos climas que o teu humor vagabundo te levava a percorrer; pela dignidade que ao homem dão as viagens pelos mares longínquos e pelos mares inexplorados, no meio dos gelos polares ou debaixo de um sol tórrido; não toques com a tua mão, como que com um frémito de brisa, aqueles cabelos em anéis, esparsos pelo chão, misturados com a erva verde. Afasta-te vários passos e agirás melhor assim. Aqueles cabelos são sagrados; foi o próprio hermafrodita que o quis. Não quer que lábios humanos beijem religiosamente os seus cabelos perfumados pelo hálito da montanha, tal como a sua fronte, que neste instante resplandece como as estrelas do firmamento. E mais vale julgar que é mesmo uma estrela que desceu da sua órbita, atravessando o espaço, para que esta fronte majestosa, por ela rodeada com a sua claridade diamante, como que por uma auréola. A noite, afastando-lhe com seus dedos a tristeza, veste todos os seus encantos para festejar o sono daquela incarnação do pudor, daquela perfeita imagem da inocência dos anjos: o zumbir dos insectos, é menos audível. Os ramos pendem sobre ele sua densa copa para o preservarem do orvalho, e a brisa, fazendo ressoar as cordas da sua harpa melodiosa, dirige os seus jubilosos acordes, através do silêncio universal, para aquela pálpebras baixas, que julgam assistir, imóveis, ao concerto cadenciado dos mundos suspensos. Sonha que é feliz; e que a sua natureza corporal se transformou; ou que, ao menos, voou para uma nuvem cor de púrpura, para uma outra esfera, habitada por seres da sua mesma natureza. Oh! Que a sua ilusão se prolongue até ao despertar da aurora! Sonha que as flores dançam em redor, à sua volta, como imensas grinaldas loucas, e que o impregnam de seus suaves perfumes, enquanto beleza mágica. Mas não passa de um vapor crepuscular o que os seus braços enlaçam; e, ao acordar, já nada enlaçarão. Não acordes hermafrodita; não acordes ainda, peço-te. Porque não queres acreditar em mim? Dorme… dorme ainda. Que o teu peito se erga, atrás da quimérica esperança da felicidade, isso permito; mas não abras os olhos. Ah! Não abras os olhos! Quero deixar-te assim, para não assistir ao teu desaparecimento. Talvez um dia, com um volumoso livro, em páginas comovidas, eu venha a contar a tua história, assombrado pelo que ela contém e pelos ensinamentos que dela se deduzem. Até aqui ainda não me foi possível; pois, de cada vez que o quis, caíam abundantes lágrimas no pape, e tremiam-me os dedos sem ser de velhice. Mas quero acabar por ter essa coragem. Estou indignado com os meus nervos de mulher, e por desmaiar como uma donzela de cada vês que penso na tua grande miséria. Dorme… dorme ainda; mas não abras os olhos! Adeus, hermafrodita! Não deixarei de pedir ao céu por ti todos os dias (se fosse por mim não pediria). Que a paz esteja no teu seio!
hoje tive uma grande vontade de reler este texto. |
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Convite para uma manifestação antiautoritária contra a repressão policial.Um ano depois do ataque policial em pleno Chiado no dia 25 de Abril de 2007, dois meses depois da carga policial no despejo do Grémio Lisbonense , perante os ataques continuados da polícia em Bairros Sociais e por todos os episódios de abuso e violência perpetrados pela repressão organizada do Estado, convocamos uma manifestação antiautoritária contra a repressão policial. Manifestamo-nos neste dia porque passaram 34 anos desde que uma pseudo-revolução substituiu um governo fascista por um governo que continua a controlar, a matar e a reprimir e cujos antecessores rapidamente se preocuparam em controlar o "descontrolo" das populações no pós 25 de Abril. A marcha dos tristes, que todos os anos comemora esta transição, não nos diz nada, pois não queremos celebrar o quotidiano policial nem a liberdade-de-centro-comercial. O sistema capitalista, na sua vertente democrática, leva-nos a pensar que não sabemos gerir as nossas vidas e que a polícia é uma realidade à qual não podemos fugir. Como se não bastasse vivermos num estado policial, querem que sejamos nós próprios os polícias das outras pessoas, de nós próprios e dos nossos vizinhos. A polícia, que todos os dias reprime e violenta, não serve a ninguém se não àqueles que lucram com a miséria de todos os outros, àqueles que nos oferecem uma vida controlada, que destroem os ecossistemas, que impõem fronteiras entre regiões, que nos roubam no trabalho, que nos dizem como devemos ser e que nos querem convencer que somos indivíduos, quando a nossa individualidade não passa de uma ilusão no leque de possibilidades que a sociedade de consumo nos deixa ter. Assim, esta como qualquer outra data, serve para contestar este e qualquer governo pois, inevitavelmente, todos nos querem impor uma vida debaixo de câmaras de vigilância, fronteiras e polícias várias. Todos estes métodos de controlo e repressão são tendencialmente universais e à medida que o tempo passa achamos serem cada vez mais normais e sabemos serem também mais presentes. Todos conseguimos resolver os nossos conflitos, pensar pelas nossas próprias cabeças, imaginar como realmente queremos que sejam as nossas vidas. Apelamos à participação de todos aqueles que condenam a violência policial e os métodos que o capitalismo e o estado têm para nos controlar.  |
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carga policial no grémio "O Grémio Lisbonense, associação com mais de 150 anos sediada na Baixa de Lisboa (virada para o Rossio), recebeu ontem ordem de despejo. Muita gente se deslocou ao local ontem para defender o Grémio, a sua dinâmica cultural e do seu valor histórico. No texto em anexo (e em baixo) conta-se o que lá se passou. A polícia teve uma atitude inqualificável de irresponsabilidade, incompetência e violência. Reprimiu um protesto pacífico à bastonada, batendo e ameaçando inclusivamente vários jornalistas. E depois: um rapaz detido foi espancado e ameaçado violentamente na esquadra por um dos polícias que estava presente na operação do Grémio. Vamos continuar a defender o Grémio Lisbonense, instituição de utilidade pública, valor histórico e intervenção social insubstituível, aberta a todos. Vamos continuar a defender a dinâmica cultural da Baixa de Lisboa. Contra a Lisboa desocupada, das casas emparedadas, da especulação imobiliária e dos negócios de luxo. Acabemos também com a violência policial e a impunidade, na rua e nas esquadras. Estas histórias têm de ser contadas. O que aconteceu no Grémio Lisbonense e depois. O grémio recebeu ontem uma ordem de despejo. A partir de meio da tarde (cerca das 16h) começaram a juntar-se mais pessoas à porta. Passada uma hora eram cerca de 50 sócios e amigos e alguns jornalistas e fotógrafos (Lusa, jornal Público, Jornal de Notícias, etc). Às 19h eram mais de 100 pessoas de todas as idades. Dois polícias à porta permanentemente. Os sócios eram impedidos de entrar, tirando alguns membros da direcção e aqueles que tinham de tirar de lá alguns objectos. Uma carrinha de mudanças foi sendo carregada com alguns haveres que não pertencem ao Grémio (instrumentos, coisas do bar, etc). No entanto todo o espólio do Grémio ficou lá. Uma cadeira de barbeiro saíu e houve assobios dos presentes. A cadeira não é propriedade da Associação, mas foi vista por alguns dos presentes como um símbolo deste despejo precipitado. Alguns dos proprietários estiveram no local. Cumpria-se a ordem do tribunal. Fez-se um inventário dos bens. Cerca das 19h as pessoas que se juntaram para defender o espaço começaram a discutir o que fazer, a questionar a legalidade do despejo e a necessidade de o fazer, uma vez que estava já marcada uma reunião na Câmara Municipal de Lisboa para quarta-feira próxima, com a presença da direcção do Grémio e dos proprietários para negociar uma solução que permitisse a continuidade das actividades culturais da Associação, a preservação do edifício histórico. Houve várias ideias para não permitir o despejo, informar a comunicação social, fazer pressão para que o Grémio não fosse despejado. Fez-se uma assembleia improvisada no átrio da entrada, no rés do chão. Houve esclarecimentos de um membro da direcção que reafirmou a possibilidade de se encontrar uma solução. Um membro do gabinete da câmara do vereador José Sá Fernandes também falou da negociação de quarta-feira, explicando as diligências que podem ser feitas na Câmara. A advogada do Grémio esteve presente no local, falou muito brevemente da possibilidade de uma negociação e anunciou uma conferência de imprensa pelas 19h30 no seu escritório, longe dali. Os presentes não saíram do local. Continuaram a discutir. Alguns sócios queriam entrar no Grémio. Discutiu-se a possibilidade de reunir lá dentro e decidir com calma o que fazer. Numa segunda assembleia improvisada, de novo no átrio de entrada, enquanto se preparavam acções de sensibilização e protesto até à quarta-feira seguinte, levantaram-se várias vozes que defenderam que se subisse ao primeiro andar. Muitos subiram. Um polícia pergunta “o que é que fazem aqui?” e começa a empurrar e agredir os primeiros a subir a escada. As pessoas não desmobilizam. Protestam contra a violência despropositada da polícia. Cinco polícias estão lá em cima. Cassetetes na mão. Os ânimos aquecem. Algumas pessoas apelam à calma. Um membro da direcção apela à calma e volta a reafirmar a possibilidade de se suspender o despejo e arranjar uma solução para o Grémio continuar vivo, que passasse simplesmente por uma actualização da renda. Algumas pessoas pedem identificação da polícia por lhes terem batido. Grita-se: “ O Grémio é nosso!”, “Lisboa a quem a vive” e palavras contra a repressão policial. Chegam reforços policiais (mais um dez polícias) que tentam abrir caminho à força pelas escadas para chegar ao primeiro andar. Todos as pessoas se sentam no chão, dificultando a passagem da polícia. A polícia não está com meias medidas, começa a bater indiscriminadamente em todos, criando o caos. Várias pessoas magoadas e esmagadas. Fotógrafos e jornalistas agredidos. Ouvem-se gritos. As pessoas protegem-se, defendem-se como podem. A polícia bate com cassetetes, empurra e pontapeia. Varre à pancada a escada. As pessoas saem do edifício para a rua. Há cabeças partidas, e muitos queixam-se de terem sido agredidos. Pelo menos um jornalista e um dos que estavam na escada pacificamente ficam no átrio de entrada (rés-do chão). Depois de alguns diálogos infrutíferos entre a polícia e as pessoas que ali se encontravam, os polícias fazem um cordão cá em baixo, já na rua e começam a dizer às pessoas para circular. Várias viaturas da polícia estão estacionadas no Rossio, junto ao Grémio. As pessoas protestam contra a violência policial. Concentram-se ainda durante algum tempo à frente do Arco do Bandeira (o arco debaixo do Grémio). ... e depois: As imagens da TVnet mostram imobilizado no chão um rapaz. Este rapaz, que nunca agrediu nenhum polícia e apelou repetidamente à calma, foi detido e levado para a esquadra. Na esquadra foi fechado numa sala, foi espancado violentamente (com socos, com uma cadeira, etc), foi ameaçado e torturado durante horas por um dos polícias que estava na operação, um polícia da esquadra da Estefânia de uma posição hierárquica superior. O rapaz violentado pôde telefonar a chamar advogados e amigos que, depois de finalmente sair da esquadra (cerca das 3 da manhã, seis horas depois de ser levado para a ), o levaram ao hospital. Tem várias lesões no corpo e na cabeça." notícias: tvnettvnet IIpúblicosapo |
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